A pequena memória, por Tiago Bartolomeu Costa
Quando o programa O Estado do Mundo foi apresentado escrevi (Público, 26/02) que uma das suas mais valias consistia na possibilidade de se provar da existência de «uma nova vaga de fundo da criação contemporânea nacional» e perceber se fazia sentido «falar de uma nova geração».
Apresentados os resultados de uma das mais amplas e generosas iniciativas, a residência artística Sítio das Artes, descrita como «espaço vocacionado para a produção e reflexidade artísticas, num contexto de permanente confronto e interacção», o balanço fica bastante aquém dessa hipótese de «vaga de fundo» e ainda menos de «uma nova geração». O problema estará nas escolhas, no programa ou na expectativa?
Se um programa é sempre genérico (mas este em particular era atento às carências nacionais) e as escolhas nunca se equilibram, a expectativa desta catalogação é fundamentada pela necessidade de perceber as hipóteses de artistas surgidos num contexto pós-dramático, trágico e sobre-referencial. De uma maneira geral, os protagonistas das artes do corpo presentes parecem ter desperdiçado uma oportunidade de reflectirem sobre o que significa criar hoje.
Entre a expectativa mínima e a esperança máxima, as propostas concebidas por Joana Craveiro, Juliana Penna, Vera Santos, Ana Trincão, Miguel Bonneville e Maria Gil, eram unidas por aquilo que o artista plástico Christian Boltanski classificou de «a pequena memória» – que Craveiro citava, e bem –, mas que se tornou um escape para muitos criadores: a defesa de que uma selecção de referências imediatas e geracionais pode substituir sem perda os processos evolutivos da História. Ora, Boltanski não diz apenas que a nossa memória é tão ou mais importante que a memória universal. Diz também, e muito concretamente, que a memória individual só tem importância se confrontada com os efeitos provocados pela memória universal. Ou seja, essa «pequena memória» exige distância e capacidade de auto-crítica, pontos que estas propostas fazem por ignorar através daquilo que lhes é mais imediato, reconhecível e, por vezes, descartável.
Uns ainda em processo de maturidade artística, ou alguma incapacidade em lidar com o legado teórico e performático bem como com os desafios deste convite, outros obcecados com o duelo forma/conteúdo revelam, afinal, sintomas claros de um estado actual da criação. Lamentavelmente parecem todos continuar a falar para dentro, para si e para nada.
Se a generalização grassa a Europa, em Portugal só impressiona mais porque as rupturas são tão recentes. É por isso penoso ver a errância, o formalismo e uma pressa geracional em afirmar um discurso e forçar uma independência sem que sejam claros, em muitos casos, nem contra aquilo que se está a ir nem os caminhos a seguir. E, por isso, desta deriva modernaça e erradamente desenraizada (ou por enraizar), fica-nos a sensação de absoluta apatia pelo que existe em seu redor e acentuação de um gozo pelo sentimento de periferia. Como se bastasse aquilo que se conhece para analisar o estado do mundo.
Público, 30 de Julho 2007
RESPOSTA
Na sequência do comentário "A pequena memória" assinado pelo Tiago Bartolomeu Costa [e publicado neste jornal, na passada segunda-feira 30 de Julho], escrevo este memorando com o intuito de contribuir para uma visão mais ampla dos resultados da residência artística Sítio das Artes a que se referia o dito comentário. Convicta da sua capacidade de análise, não poderia contudo deixar de contrapor algumas questões sobre aquela iniciativa (que não se pode resumir à apresentação final) e que me parecem úteis lançar no espaço público, onde desejavelmente se pode discutir o estado das coisas.
Eu [Vera Santos] participei no Sítio das Artes (sitiada na área das artes do corpo), estive exposta aos visitantes que ao longo dos 2 meses (5 dias por semana) passaram pela residência. Estive disponível para falar e ser interpelada, a observar e a ser observada (fotografada, até) por pessoas que, na maioria, não estavam familiarizadas com a arte contemporânea – mas esse era também o desafio - muitos «não percebiam nada daquilo», achavam inclassificável «aquele estado de coisas» e classificaram «aquilo» de «nada». A aproximação à arte não depende da acumulação de obras vistas, depende das obras que se vê e depende também da generosidade, que é uma coisa que falta muito no mundo (não só no da arte). Estar nesta residência foi um belo exercício de generosidade, muitas vezes sem retorno, mas o tal mundo é assim mesmo, e é sempre fácil culpar o outro. Sobre o estado do mundo, ouvi grandes teóricos defenderem: a atenção aos pequenos mundos, à particularidade; o cuidado no crescimento, accionando a convivialidade; a eleição entre o verdadeiro e o justo; e, se o ressentimento é inevitável, «a tolerância é necessária em virtude de que todas as coisas são falíveis» (Antonio Cicero, a propósito do conceito de civilização).
Apesar de já termos sido apresentados e de nos termos cruzado várias vezes (inclusive durante a programação de O Estado do Mundo), lamentavelmente, não foi [Tiago Bartolomeu Costa] um visitante disponível para falar, para questionar, para criticar ou para partilhar um bocado desse mundo imenso que, ao que li no seu comentário, estou longe de tocar enquanto artista porque só pressinto a importância da minha existência. Vi-o no Open Studio, dia da apresentação final, no dia em que esteve a trabalhar no Sítio das Artes, eu estava a observá-lo e posso dizer-lhe que sei que não é fácil estar nesse lugar... a pressão é imensa. A forma que encontrei estes meses para lidar com isso, foi descentrar-me de mim, olhar à volta, cultivar a curiosidade, trocar impressões, ouvir experiências, saber o que se passa, de onde vêm as pessoas... o mundo não é só o que vemos.
Ao ler a sua pequena memória do encerramento, fiquei atónita com a natureza generalista de expressões como «Lamentavelmente parecem todos continuar a falar para dentro, para si e para nada» e a visão redutora relativa aos 6 protagonistas (designação tanto para um "herói" como para um "figurante") das artes do corpo, perante um conjunto de 20 artistas (designação não menos rica em sentidos) de 5 países - e como muito bem reconhece, «escolhas que nunca se equilibram» - fazendo parte da particularidade da residência.
Quanto a expectativas - quais seriam as do público? E as dos artistas? O que aconteceu realmente naquele museu? Será que estas questões são periféricas num projecto com esta envergadura? Faz sentido só se avaliarem os resultados, de um dia de encerramento, de uma iniciativa que questiona precisamente os processos?
A experiência da arte mostra como alguns artistas e alguns críticos partilham a mesma atitude visionária mas em gestos diferentes e subsequentes. Esta iniciativa teve a mais-valia de colocar o público perante o trabalho da criação artística. Se dois meses não foram suficientes para «se provar da existência de uma nova vaga de fundo da criação contemporânea nacional», serão contudo diferentes os olhares do futuro?
Os dados foram lançados, quem com eles irá ganhar?
Vera Santos