Quando foi o open day (28 de julho) no sitio das artes, o diario que vinha escrevendo, os Bobs originais icluidos, desapareceram misteriosamente do CAM.
Achando-as perdidas, surprendi-me gratamente ao encontrar estas dernier notes, que aqui ficam para desfrute colectivo.
Espero que não desesperem
gashô
Terça Feira 17 de Julho
* É impressionante o preço de um bloco de papel na papelaria fernandAS.
* Tudo igual, tudo diferente.
* Caiu um avião em São Paulo.
* E para ter bons sonhos recebi o seguinte email: viva a arte!, viva a
civilização!
Quarta Feira 18 de Julho
* Mais uma manhã de arte.
* Vejo passar uma fileira enorme de carros da policia, furgonetas, carros
diplomáticos com luzes a piscar e sirenes, num grande estrilho.
* No meio da comitiva ia um carro com bandeira espanhola.
* Na cafetaria. 10 pras 10. Vejo que há aqui clientes fixos.
* As dançarinas parecem-me passarinhos de tão leves, de tão etéreas
e falsamente frágeis. Ligadas ao ar, ao voo livre.
* Um bebe
sente com o corpo todo.
H(o)E
* Não percebo por que os autocarros tem uma banda de folhas que parecem
de natal em Julho.
Tortilla
- patatas - 1 docena de huevos
- cebolla - 1 pimiento
chorizo – para asar
3 Borbas / / Fruta
Quinta Feira 19 de Julho
* No master – do Sina.
* Doggerel alguma coisa de tão insignificante, sem importância
* Revista Cabinet.
* A noite os contos. Veio o a Chiara e o André e a Anais. Sobretudo veio o meu
pai. A gente gostou muito dele. Ele falou da sua estadia na Rep. Dominicana.
Vieram mais pessoas, iam embora e vinham outras. NOITE MARAVILHOSA
Sexta Feira 20 de Julho
* O meu pai vai embora. Vou com ele ate a estação. Como prenda deixa-me o
forte aperto de mão do motorista (um daqueles que nos faz sentir que temos
mão) que me diz “já sabes, se precisares de alguma coisa... Eu olho pelo teu
pai” E estas palavras emocionaram-me, ele tem 74 anos e começa pra
semana uma terapia contra o cancro.
* Tive o tutorial com o Sina.
FIXE
* Á tarde fomos ver o espaço lá perto da expo. Acho que não dá, mas foi bom
conhecer lugar, a livraria, etc.
Sábado 21 de Julho
* meco
poema-som
A quanto tempo já não via
Ás estrela não sabem
A Lua foi embora
Domingo 22 de Julho
* Mix de sol, mar, areia e trabalho com o caro dRÉ. Delicioso jantar.
A imagem não existe.
Segunda Feira 23 de Julho
* Although the baratas, ...........................Its fits. I fit
chegam Andrzej e Maite
e
ana
Terça Feira 24 de Julho
* No metro. Vou almoçar com o Jürgen. Subindo a Rua das Pretas, outrora meu
percurso diário. Vejo o que mudou, o que não mudou o que será sempre
igual.
No jardim vejo um velhinho de boné tirar agua duma torneira e lavar os
dentes. O homem descalça os sapatos e tira a meia preta, com ela limpa o pé
e os dedos, depois pega numa meia nova, cinzenta, que enfia no pé. Calça o
sapato, aperta os atacadores. Faz o mesmo com o outro pé. Agora tira uma
pastilha de sabão. Vai ali, onde a torneira, se agacha e lava as meias;
absolutamente fabuloso. Ele escorre as meias, torce-as muitas vezes,
sacode-as e deixa-las secar no encosto do banco onde ele se senta. Ahhhhhh
lava as mãos.
do amor

“Conviver no mundo significa essencialmente ter um mundo de coisas interposto entre os que nele habitam em comum, como uma mesa se interpõe entre os que se sentam em seu redor; pois, como todo intermediário, o mundo, ao mesmo tempo, separa e estabelece uma relação entre os homens.”
“O termo público denota dois fenômenos intimamente relacionados mas não completamente idênticos.
Significa, em primeiro lugar, que tudo o que vem a público pode ser visto e ouvido por todos e tem a maior divulgação possível. Para nós, a aparência – aquilo que é visto e ouvido por outros e por nós mesmos – constitui a realidade. Em comparação com a realidade que decorre do facto de que algo é visto e escutado, até mesmo as maiores forças da vida íntima – as paixões do coração, os pensamentos da mente, os deleites dos sentidos – vivem uma espécie de existência incerta e obscura, a não ser que, e até que, sejam transformadas, desprivatizadas e desindividualizadas, por assim dizer, de modo a tornarem-se adequadas à aparição pública.
(…) Uma vez que a nossa percepção da realidade depende totalmente da aparência (…) até à meia-luz que ilumina nossa vida privada e íntima deriva, em última análise, da luz muito mais intensa da esfera pública.
No entanto, (…) existem assuntos muito relevantes que só podem sobreviver na esfera privada. O amor, por exemplo, em contraposição à amizade, morre, ou antes, extingue-se assim que é trazido a público. (…) Dada sua inerente natureza extraterrena, o amor só pode falsificar-se e perverter-se quando utilizado para fins políticos, como a transformação ou salvação do mundo.”
Hanna Arendt in “A Condição Humana”
Vi um prego do Século XIII, enterrado até o meio
numa parede de 3x4, branca, na XXIII Bienal de Artes Plásticas de São Paulo, em 1994.
Meditei um pouco sobre o prego.
O que restou por decidir foi:se o objeto enferrujado
seria mesmo do Século XIII ou do XII?
Era um prego sozinho e indiscutível.
Podia ser um anúncio de solidão.
Prego é uma coisa indiscutível.
manoel de barros
in Livro sobre nada
numa parede de 3x4, branca, na XXIII Bienal de Artes Plásticas de São Paulo, em 1994.
Meditei um pouco sobre o prego.
O que restou por decidir foi:se o objeto enferrujado
seria mesmo do Século XIII ou do XII?
Era um prego sozinho e indiscutível.
Podia ser um anúncio de solidão.
Prego é uma coisa indiscutível.
manoel de barros
in Livro sobre nada
O sítio das artes no estado do mundo; no centro da pertinência, à margem das expectativas – por Cristina Campos in Artecapital
Instalado no espaço expositivo do CAMJAP entre Junho e Julho, o “Sítio das Artes” materializou-se num modelo de residência de artistas tutorizada (por Sérgio Mah e Lia Rodrigues) e apoiada em masterclasses a que o público teve acesso. Pretendia-se não só fomentar a aposta na formação e intercâmbio entre os jovens artistas participantes, como proporcionar o confronto dos visitantes com o desenvolvimento do processo criativo, potenciando-se também o diálogo entre os espectadores e os vinte artistas seleccionados (provenientes das artes visuais e das artes performativas). É possível, não obstante a sua originalidade, estabelecer alguns paralelismos com outras iniciativas decorridas na Fundação, caso do Programa de Criatividade e Criação Artística e a precedente exposição de Pedro Cabrita Reis.
O Sítio das Artes na programação da Plataforma 2 do fórum cultural “O Estado do Mundo”, dirigido por António Pinto Ribeiro, acabou por não se revelar um lugar especialmente atractivo nem para o público, nem para os artistas que participaram no projecto. Pela incontestável originalidade e pertinência associadas à iniciativa - particularmente expressiva num contexto em que é urgente repensar o espaço museológico no processo de legitimação e fruição da arte contemporânea - as expectativas foram elevadas mas os resultados situaram-se aquém do planeado. Evidência que ressaltou sobretudo quando, no passado dia 28, os projectos que foram sendo desenvolvidos (os mesmos que estiveram na base da selecção) se apresentaram finalizados, através de um formato de “Open Studio”. Os constrangimentos acabaram, ao longo de todo o processo, por se revelar de diversa ordem e abrangeram ambas as variáveis (artista-produção /público-recepção) desta equação original, oportunamente colocada, mas com resultados imprevisíveis.
Relativamente à recepção, a estranheza provocada no visitante nada habituado à desvirtuação da concepção modernista/contemplativa do espaço museológico, transformaram o “Sítio das Artes” numa experiência pouco convidativa e mesmo incompreensível para um público maioritariamente descontextualizado e desapoiado. Acrescente-se a indiscutível escassez de material expositivo para ser partilhado e a sensação de se estar num atelier encenado – estaria o local a ser verdadeiramente vivido? –, bem como a indisponibilidade perceptível em ambas as partes (ainda que por motivos diferentes) para estabelecer um diálogo. A implícita intenção de desconstruir algum do constrangimento face à arte contemporânea terá seguido, provavelmente para alguns, um fluxo precisamente inverso, contribuindo para o adensar.
A produção, na referida equação, permaneceu igualmente envolta em algumas debilidades. Ao ter sido diluída a natural e saudável dualidade entre espaço de atelier e espaço expositivo, um conjunto de condicionamentos óbvios emergiram. Desde logo a própria génese subjacente ao atelier, local preferencialmente da esfera privada em que o artista, isoladamente e a um ritmo próprio, vai criando. A obrigatoriedade de ter que mostrar trabalho ou processos de trabalho em fase embrionária e parcial criou limitações igualmente confrangedoras. Muitas das vezes essas etapas revelam-se dificilmente materializáveis – à muito que a produção artística deixou de ser encarada enquanto trabalho maioritariamente oficinal – e é também inusual e questionável que o artista assuma o papel de intermediário relativamente à fruição das obras. Ou ainda que tenha que se expor, marcando a sua presença no espaço em horário pré-determinado.
Um conjunto de hipóteses configuram-se em relação à possibilidade de contornar algumas das lacunas registadas. Critérios de selecção diferentes teriam, por exemplo, contribuído para minimizar a fronteira entre o desejável e o possivelmente concretizável? Será que artistas com processos de trabalho menos conceptuais, de carácter mais oficinal e com mais abertura para a interacção e exposição pública, teriam proporcionado resultados distintos? Fica, no entanto, a certeza do descontentamento demonstrado por alguns deles e a capacidade inventiva de outros para contornar e subverter algumas das fragilidades do programa recorrendo a estratégias recheadas de criatividade e humor.
O Sítio das Artes acabou por não se revelar ao visitante prevenido do CAMJAP uma amostra fiável e segura. Faltou naturalidade ao processo, intuíram-se imposições, encenações e constrangimentos que disvirtuaram os princípios inicialmente definidos. Não chegando a estado de sítio, esta iniciativa acabou por não se revelar tão informal e despretensiosa quanto se desejaria. Todavia, independentemente das razões enunciadas, há que ressalvar o carácter experimental, de abertura e questionamento que envolveu o projecto, paradigmático das tensões que surgem quando, saudavelmente, se ousa transgredir formatos de programação e modos de expor mais formais e institucionalizados.
Artistas: Ana Santos (Portugal), Ana Trincão (Portugal), Bárbara Assis Pacheco (Portugal), Beatrice Catanzaro (Itália/Suécia), Celestino Mudaulane (Maputo), Inês Botelho (Portugal), Joana Craveiro (Portugal), João Paulo Serafim (Paris/Lisboa), Juliana Penna (Brasil), Maria Gil (Portugal), Max Rosenheim (Madrid/Lisboa), Miguel Bonneville (Portugal), Miguelangelo Veiga (Portugal), Pedro Barateiro (Portugal), Simão Costa (Portugal), Susana Guardado (Portugal), Tatiana Macedo (Portugal), Vera Santos (Portugal), Virgínia Mota (Portugal) e Ynaiê Dawson (Brasil)
O Sítio das Artes na programação da Plataforma 2 do fórum cultural “O Estado do Mundo”, dirigido por António Pinto Ribeiro, acabou por não se revelar um lugar especialmente atractivo nem para o público, nem para os artistas que participaram no projecto. Pela incontestável originalidade e pertinência associadas à iniciativa - particularmente expressiva num contexto em que é urgente repensar o espaço museológico no processo de legitimação e fruição da arte contemporânea - as expectativas foram elevadas mas os resultados situaram-se aquém do planeado. Evidência que ressaltou sobretudo quando, no passado dia 28, os projectos que foram sendo desenvolvidos (os mesmos que estiveram na base da selecção) se apresentaram finalizados, através de um formato de “Open Studio”. Os constrangimentos acabaram, ao longo de todo o processo, por se revelar de diversa ordem e abrangeram ambas as variáveis (artista-produção /público-recepção) desta equação original, oportunamente colocada, mas com resultados imprevisíveis.
Relativamente à recepção, a estranheza provocada no visitante nada habituado à desvirtuação da concepção modernista/contemplativa do espaço museológico, transformaram o “Sítio das Artes” numa experiência pouco convidativa e mesmo incompreensível para um público maioritariamente descontextualizado e desapoiado. Acrescente-se a indiscutível escassez de material expositivo para ser partilhado e a sensação de se estar num atelier encenado – estaria o local a ser verdadeiramente vivido? –, bem como a indisponibilidade perceptível em ambas as partes (ainda que por motivos diferentes) para estabelecer um diálogo. A implícita intenção de desconstruir algum do constrangimento face à arte contemporânea terá seguido, provavelmente para alguns, um fluxo precisamente inverso, contribuindo para o adensar.
A produção, na referida equação, permaneceu igualmente envolta em algumas debilidades. Ao ter sido diluída a natural e saudável dualidade entre espaço de atelier e espaço expositivo, um conjunto de condicionamentos óbvios emergiram. Desde logo a própria génese subjacente ao atelier, local preferencialmente da esfera privada em que o artista, isoladamente e a um ritmo próprio, vai criando. A obrigatoriedade de ter que mostrar trabalho ou processos de trabalho em fase embrionária e parcial criou limitações igualmente confrangedoras. Muitas das vezes essas etapas revelam-se dificilmente materializáveis – à muito que a produção artística deixou de ser encarada enquanto trabalho maioritariamente oficinal – e é também inusual e questionável que o artista assuma o papel de intermediário relativamente à fruição das obras. Ou ainda que tenha que se expor, marcando a sua presença no espaço em horário pré-determinado.
Um conjunto de hipóteses configuram-se em relação à possibilidade de contornar algumas das lacunas registadas. Critérios de selecção diferentes teriam, por exemplo, contribuído para minimizar a fronteira entre o desejável e o possivelmente concretizável? Será que artistas com processos de trabalho menos conceptuais, de carácter mais oficinal e com mais abertura para a interacção e exposição pública, teriam proporcionado resultados distintos? Fica, no entanto, a certeza do descontentamento demonstrado por alguns deles e a capacidade inventiva de outros para contornar e subverter algumas das fragilidades do programa recorrendo a estratégias recheadas de criatividade e humor.
O Sítio das Artes acabou por não se revelar ao visitante prevenido do CAMJAP uma amostra fiável e segura. Faltou naturalidade ao processo, intuíram-se imposições, encenações e constrangimentos que disvirtuaram os princípios inicialmente definidos. Não chegando a estado de sítio, esta iniciativa acabou por não se revelar tão informal e despretensiosa quanto se desejaria. Todavia, independentemente das razões enunciadas, há que ressalvar o carácter experimental, de abertura e questionamento que envolveu o projecto, paradigmático das tensões que surgem quando, saudavelmente, se ousa transgredir formatos de programação e modos de expor mais formais e institucionalizados.
Artistas: Ana Santos (Portugal), Ana Trincão (Portugal), Bárbara Assis Pacheco (Portugal), Beatrice Catanzaro (Itália/Suécia), Celestino Mudaulane (Maputo), Inês Botelho (Portugal), Joana Craveiro (Portugal), João Paulo Serafim (Paris/Lisboa), Juliana Penna (Brasil), Maria Gil (Portugal), Max Rosenheim (Madrid/Lisboa), Miguel Bonneville (Portugal), Miguelangelo Veiga (Portugal), Pedro Barateiro (Portugal), Simão Costa (Portugal), Susana Guardado (Portugal), Tatiana Macedo (Portugal), Vera Santos (Portugal), Virgínia Mota (Portugal) e Ynaiê Dawson (Brasil)
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